Não dê poder a quem quer destruir o seu potencial
- haryane santos

- há 1 dia
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“Você não tem nada de especial, só brilhou nesse lugar porque sabe costurar.”Essas foram as palavras da pastora, diretora do centro missionário onde estudei e morei durante um ano e seis meses.
Hoje eu não frequento igrejas, não sou religiosa e, com certeza, não tento converter ninguém de nada. Mas, em 2010, as coisas eram bem diferentes. No dia 21 de fevereiro de 2010, desembarquei em Curitiba para ingressar em uma escola cristã. Era um centro missionário que também incorporava, em seu currículo, o primeiro ano de um curso teológico — o curso que eu faria.
Logo no início do ano, fomos informados de que os estudantes fariam uma apresentação em uma grande convenção de pastores, envolvendo teatro, música e dança. A líder responsável pela apresentação começou a investigar quais talentos existiam entre os alunos. Eu tinha feito alguns anos de dança com um professor muito bom e renomado no Pará, mas não me manifestei como bailarina, pois nunca fui uma aluna dedicada à dança.
Em vez disso, avisei que sabia costurar e que já tinha em mente um modelo de vestido simples que poderia confeccionar para o grupo de dança. O modelo era realmente simples — inclusive, eu já o havia feito no ano anterior para as meninas que dançavam na minha igreja, no Pará. Desenhei e propus fazer os vestidos no período em que os alunos se dedicavam à limpeza das áreas comuns, entre as atividades acadêmicas.
Os vestidos eram de um cetim com toque de seda cinza, que combinava com o contexto do restante da apresentação. Tinham comprimento até o meio das panturrilhas, eram basicamente um quadrado com elástico na cintura e levemente franzido nos ombros. Também apliquei rosas feitas com o próprio tecido para adornar a cintura e os ombros.
Depois da apresentação, continuei trabalhando com a costura. Havia várias demandas e fui atendendo conforme surgiam: consertos nas roupas dos alunos, bainhas em toalhas de mesa usadas nos eventos da chácara, entre outros.
Naquele momento, senti que fazia parte de algo. Todos os alunos pareciam ter talentos especiais: alguns cantavam, outros dançavam, tocavam instrumentos, falavam com eloquência, eram divertidos, sabiam mais de um idioma, eram criativos em suas áreas — tanto na dança quanto no teatro. Era um mar de talentos, e a única coisa que eu achava que podia oferecer era minha habilidade com a costura.
Era o final do ano e todos os alunos se preparavam para ir embora. A pastora me chamou à sua sala e, para ser sincera, não lembro o que ela disse antes ou depois dessa frase: “Você não tem nada de especial, só brilhou nesse lugar porque sabe costurar.” Só me recordo do que senti naquele momento. Por algum motivo — talvez pelo tom ou simplesmente pelo conteúdo da fala — senti como se ela tivesse razão. Era como se o direito de me sentir triste por aquilo não me pertencesse, porque, naquele instante, a única certeza era que eu não tinha feito nada de relevante naquele lugar.
Nos seis meses seguintes, ainda tentei me enquadrar. Tentei fazer parte do grupo que havia sido selecionado para a liderança, mas era como se cada tentativa só mostrasse o quanto eu era inadequada para a função. Recordo todas as vezes em que me senti envergonhada pelas tentativas frustradas de fazer parte daquilo.
Voltei algumas vezes, nos anos seguintes, para desenhar e costurar — normalmente no início do ano, para desenvolver as peças usadas nas convenções pastorais. Ficava por no máximo dois meses. E todas as vezes era como se eu tivesse que me considerar uma grande privilegiada. Não importava o quanto eu trabalhasse: estar ali era tratado como um privilégio imerecido. Nenhum esforço parecia suficiente para que eu realmente pertencesse àquele lugar. Não era permitido sentir nada além de gratidão. Nunca estive à altura.
A costura faz parte da minha vida há gerações. Minha mãe costura, minha avó também costurava, e já ouvi muita coisa sobre essa profissão. Existe um estigma: quem costura não tem muito a oferecer além do próprio trabalho. É como se costurar não fosse grande coisa, e quem costura, menos ainda.
Lembro de algumas vezes em que “amigos” daquele centro missionário me chamavam de costureira em tom de deboche. Não parecia que estavam exaltando o que eu fazia. Aquela "brincadeira", segundo eles, não tinha intenção ofensiva, mas duvido que qualquer um deles admitisse que havia ali uma tentativa de menosprezo.
Eu ria sem graça ou tentava corrigir o “engraçadinho” com nomenclaturas mais elegantes: “sou estilista”, “sou designer”, “sou modelista”… numa tentativa de dar mais glamour ao ofício.
A pastora não estava tentando me ajudar a evoluir ou a buscar uma nova habilidade que me tornasse, aos olhos dela, mais significativa. Ela só queria se sentir melhor consigo mesma e, para isso, precisava invalidar o talento de alguém. Nem todo mundo vai reconhecer o seu valor — como pessoa ou profissional — e tudo bem. Eu só queria ter entendido antes de sofrer tanto pela opinião não solicitada de outra pessoa que não eu mesma.
Haryane Santos




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