Dia 16 sem Instagram: Eu não precisava transformar a dor em espetáculo para ela ser real
- haryane santos

- 20 de mar.
- 2 min de leitura

Eu achei que ia sucumbir facilmente a qualquer desafio minimamente incômodo e retornaria ao Instagram. Eu estava errada.
No terceiro dia longe da rede social, um amigo morreu, e eu fiquei desesperada por notícias, mas mantive a calma e, aos poucos, as notícias foram chegando, de forma gradativa e organizada. Mas a minha prova de fogo foi no décimo sexto dia de isolamento, porque, quando cheguei em casa e vi que a minha porta havia sido arrombada, eu percebi que o universo não estava para brincadeira e que ia realmente testar os meus nervos.
Ver a minha porta entreaberta, com um pedaço da madeira arrancado na direção da fechadura, foi uma cena que venho revivendo desde então. Ali, eu senti um combo de sentimentos muito perturbadores, me vi exposta, vista de uma forma íntima, invadida e desprotegida. Entrar na minha casa e perceber a TV arrancada da parede, a ausência do meu computador na mesa, uma pilha grande de tecidos que não estavam mais na estante me fez gelar por dentro. Me senti nua.
Por um segundo, não era mais a minha casa, parecia o território de outra pessoa, porque, se fosse minha, não teria sido invadida. Na minha casa, ninguém tinha autorização para tratar as minhas coisas daquele jeito. Não parecia real, mas era real — e era a minha casa.
Mesmo me sentindo assim pelo baque inicial, eu estava aparentemente bem, até a polícia chegar. Quando o policial perguntou “tudo bem com você?”, comecei a chorar e só tive forças para responder: “Não, invadiram a minha casa”. A polícia entrou na minha casa, e eu senti um misto de alívio com mais invasão, só que, dessa vez, uma invasão necessária, que envolvia policiais testemunhando o meu fracasso como protetora do meu lar.
Acho que o que eu mais senti falta foi da falsa sensação de acolhimento que a rede proporciona às vezes. Queria contar aos meus “amigos” o ocorrido, queria contar o quão desesperada eu estava e como me sentia desamparada, e, com toda certeza, seria um dia inteiro de mensagens de “amigos” chocados e curiosos com o ocorrido. A parte triste é que eu provavelmente ia aproveitar o momento para tentar emplacar na rede. É como aqueles momentos bizarros de pessoas tirando selfie em frente a uma casa em chamas ou acidentes.
O mais louco de tudo isso é que eu percebi que tudo o que eu perdi não me fazia falta, mas, se eu tivesse incluído a rede social na equação dessa tragédia, provavelmente não teria percebido isso. Pelo contrário, depois de uns dias, eu ficaria envergonhada por usar algo tão grave para me expor com a intenção de receber atenção. Eu gostaria de não ter consciência disso, mas infelizmente tenho há algum tempo.
Tive prejuízo: levaram minha smart TV, meu notebook, uns 40 metros de tecidos, conjuntos de panelas na embalagem, um licor e outras coisas menores que ainda não tive tempo de sentir falta.
Me mantive firme, mesmo com um certo desespero por atenção naquele momento.
Resisti à tentação de ser duplamente vítima: vítima factual do arrombamento e vítima opcional, movida pelo impulso de aparecer.
Dia 16 sem Instagram
Haryane Santos





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